Leia abaixo artigo assinado pelo Dr. Daher publicado no jornal Correio Braziliense, no último dia 08 de outubro, sobre Câncer de Mama.

Em 1896, Halsted demonstrou que a amputação da mama curava ou prolongava a vida das pacientes com câncer. Salvou e prolongou a vida de mulheres. Mas mutiladas sofrem com barreiras conjugais e sociais. Em termos de linguagem corporal, a identidade feminina não está na vagina, mas em suas mamas.

Em 1962, Cronin teve a ideia de colocar próteses de material sintético na intimidade do corpo humano, especificamente para trazer volume às mamas. Em 1969, aluno de Pitanguy, tive os primeiros contatos com a técnica que ele usava largamente.

Brasília iniciou procedimentos nas prevenções e reconstruções mamárias em 1972, na cirurgia plástica do Hospital das Forças Armadas (HFA), serviço que eu implantei e chefiava. Iniciamos os grandes esvaziamentos das mamas e a reconstrução imediata com silicone. A técnica abriu caminho para os mastologistas, que passaram a retirar glândulas apenas com sinais sugestivos de câncer mamário.

O tratamento precoce dispensava a mastectomia radical, não deixava sequelas e tinha bonitos resultados. Produzimos filmes de 8mm e 16mm que apresentamos em dezenas de congressos no Brasil e no exterior. A técnica, inicialmente criticada por não garantir a retirada de 100% da glândula mamária, é hoje o dito skin sparing universalmente praticado, que acodiu Angelina Jolie.

Mas o que fazer quando faltava pele? Ainda no HFA, em 1973, atendi moça que, com casamento marcado, não tinha como contar ao noivo que, de nascimento, lhe faltava uma mama. Sem solução conhecida, propus a ela colocarmos um implante de silicone pequenino por trás do mamilo rudimentar, que seria trocado por outros gradativamente maiores. Após três cirurgias, ela tinha a mama que lhe faltava e se casou.

Reconstruí a mama daquela moça, mas não descrevi o princípio. Rodovan o fez em 1976, quando publicou sobre os expansores: pequenos sacos vazios colocados nos locais em que se quer mais pele. Eles são enchidos progressivamente e “dilatam a pele”. À semelhança da gravidez que distende o abdome e, após o parto, deixa flacidez abdominal, ao retirarmos o “expansor” preenchido, a pele que o cobria estará redundante permitindo a colocação da prótese para a reconstrução.

Mas os pacientes pós Halsted nem pele tinham para ser expandida. Aos portadores de câncer avançado, situação ainda tão comum no Brasil, só restam as grandes amputações, com ingratas cicatrizes residuais e um tórax aplainado.

Nesse enorme desafio técnico, Brasília também foi pioneira. Em 1979, Bostwick publicou técnica para trazer pele do dorso para a parede anterior do tórax. Em 4 de janeiro de 1980, reproduzi aqui essa cirurgia. Queria iniciar a década de 1980 com uma reconstrução mamária. Sonho profissional realizado.

Em 1983, Brasília foi novamente pioneira no país, ao reproduzir, pela primeira vez no Brasil, a técnica do americano Hartrampf, que levava tecido do baixo ventre aos moldes de uma abdominoplastia e os fazia chegar à parede anterior do tórax. Era uma imagem fantástica, pela abundância de tecidos que disponibilizava para reconstruir bonitas mamas. Demonstramos essa técnica em sete estados brasileiros e em dezenas de simpósios e congressos.

Finalmente, nasceu em Brasília, em 1992, a técnica original dos “retalhos em ilha das mamas”, que publiquei nos Estados Unidos. Permitia-nos reconstruir as amputações mamárias parciais nas quadrantectomias. Nós, que só conhecíamos as reconstruções totais, aprendemos a fazer as parciais, hoje usadas em todo o mundo.

Dificuldades técnicas superadas, deparo-me ainda com intermináveis filas de mulheres aguardando anos para tratamento. Nos planos de saúde, nos quais a paciente paga com recursos próprios, está cada vez mais difícil a autorização para a cirurgia. Chegam ao ridículo absurdo de autorizarem o tratamento só da mama que tem câncer e negam autorização para o indispensável tratamento da mama contralateral. Aconteceu-me recentemente.

Esta cidade pioneira, moradia do poder, bem que poderia acordar sem filas e burocracia, diminuindo amputações e sofrimentos. Aí, então, Brasília, que para mim é rosa há 41 anos, ficará definitivamente rosa para todos e para o mundo.

José Carlos Daher é Cirurgião Plástico Membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, Membro da Sociedade Brasileira de Mastologia, Membro Fundador da Sociedade Latino Americana de Mastologia, Fundador do Hospital Daher Lago Sul e Presidente do Sindicato Brasiliense de Hospitais.

www.dahercirurgiaplastica.com.br

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